O que custa é o dizer não. Semanas, se calhar meses, de um
estado do qual não temos propriamente consciência. Apenas sentimos que não
estamos bem, que não é aquilo que queremos.
Quando estamos habituados a só chorar no escuro do cinema, só
nos permitimos chorar quando a porta se fecha atrás de nós, atrás de ti, quando
a separação é irremediável.
Mas é quando dizemos não, quando treinamos a aprendizagem do
não, quando dizemos que sa foda esta merda toda, que os
verdadeiros milagres acontecem. Quando é o universo a fechar-nos uma porta, só
temos de procurar uma outra e abri-la. Quando somos nós a fechá-la, o universo
abre-nos automaticamente outra. No fundo, a mostrar-nos que apenas temos de
aprender a fechar a porta.
Foi aí que os nossos caminhos se cruzaram. Súbita e inesperadamente.
Do céu, aos trambolhões, a meus pés, eu sem perceber nada do que se estava a
passar, qual garrafa de Coca-cola em pleno deserto.
As feridas por lamber. O medo de me dar. O pânico de
te receber. A gestão de sentimentos tão contraditórios como a perda e o ganho. A
exposição pública – se à esposa de César não basta ser, imaginem à viúva; as
preocupaçõezinhas com as convenções sociais do ainda agora se separou e é vê-lo aí com quem primeiro aparece, que isto
dos garanhões, na verdade, é para muito poucos. É tão difícil lidar com a culpa, sobretudo quando não a temos, na verdade as coisas são como são.
Mas nisto das questões amorosas não há receitas, apenas se sabe que há soufflés que se aguentam mais firmemente. Pouco a pouco, as defesas
baixam, as guardas rendem-se; um jogo de crianças do “Abre a boca e fecha os olhos”. É também um grande teste, o (re)aprender a confiar. Por vezes atirarmo-nos de cabeça pode
ser a melhor solução, quando a nossa intuição nos diz para o fazermos. Provavelmente esta será a parte mais inexplicável, porque irracional. Mas toda a gente já esteve apaixonada, sabe do que falo. E do que se seguiu. Eu, por mim, vou continuar a sorrir.

