segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Se o mundo fosse perfeito

uma das grandes vantagens de o Fado ter sido considerado património imaterial da Humanidade, seria a de existir um verdadeiro controlo de qualidade, impossibilitando qualquer Maria-vai-com-as-outras-que-eu-queria-era-cantar-jazz-mas-o-fado-dá-mais-dinheiro-e-projecção. Um pouco como a DOC funciona para o vinho do Porto, o moscatel de Setúbal, ou para o queijo da Serra. Mas, ou muito me engano (e por muito que me custe armar em velho do Restelo), não só vamos ter mais fado, como, infelizmente, pior. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada"

Há quem encontre notas nos bolsos dos casacos que se vestem pela primeira vez na estação. E depois existo eu. Que encontro o papelinho do multibanco com o qual foi pago o nosso segundo jantar. E é como se tivesse encontrado uma nota.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Dia de Acção de Graças


É mais ou menos isto

Enquanto se preocuparem se o vizinho do lado faz ou não greve, enquanto se vangloriarem de fazer greve ou de não a fazer (que isto tanto dá para um lado, como o outro), é mais do que certo que este país não vai chegar a lado nenhum. 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sr.ª Farmacêutica

que me administrou (e bem) a vacina anual contra a gripe: não era preciso ter ficado tão nervosa e ter deixado cair tudo das mãos. Obviamente que eu só iria arregaçar a manga da t-shirt. É mais do que suficiente para a sua correcta aplicação.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Como as reprimendas nos perseguem

Vinha eu para casa quando me deparei com um tipo a colar com fita-cola o anúncio dos produtos que estarão amanhã em promoção no supermercado onde trabalha. Puxou a fita-cola do rolo e rasgou-a com os dentes. E a voz da Mãe ressoou na minha cabeça: "Não cortes a fita-cola com os dentes, que ainda podes partir algum, vai buscar uma tesoura!".

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sim, mais um outro

Estava eu no outro dia à esquina da Fontes Pereira de Melo com a António Augusto Aguiar, embrenhado nos meus pensamentos como é habitual, quando sou abordado por um casal que me pergunta onde se situa onde é a estação de metro Parque. Como geralmente a minha aterragem é demorada e perante a minha hesitação, a mulher pergunta se é na direcção de Picoas. Onde, naturalmente, toda a gente sabe se encontra uma estação de metro com o mesmo nome. E eu disse que sim. Só quando me afastei do local é que a moeda me caiu, apercebendo-me então do erro.
Mas ninguém acha falta de cultura geral não saber onde ficam estações do metro, ou acha?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Chocante, chocante

foi a campanha da Benetton em 1991, que utilizou a foto dos momentos finais de vida de David Kirby, doente com sida, junto da família. Chocante porque real. Agora um beijo entre um falso padre e uma falsa freira (1992) ou a recente campanha unhate, uma mera fotomontagem irreal, só pode chocar quem acha que um beijo é estritamente um acto sexual (estou aqui a lembrar-me que as putas não beijam, dizem). Eu não queria ir buscar os exemplos das sociedade tão atrasadas que foram as sociedades feudais, em que um beijo na boca assinalava o pacto de fidelidade e vassalagem entre senhor e seu suserano. Nem tão pouco relembrar o beijo de Brejnev e Honecker em 1979 (comunistas, pá, só falta comerem criancinhas ao pequeno almoço!). E pergunto: será que os Russos terão ficado assim tão chocados quando viram a imagem real do seu presidente a beijar um padre ortodoxo? (E são eles os ortodoxos, o que faria se não o fossem...)




Meu Portugal, meu país

Quem anda muito incrédulo acerca da cultura geral dos nossos estudantes universitários, das duas, uma. Ou nunca andou na faculdade ou já se esqueceu de como era. Eu por mim falo - a melhor aluna do meu curso (que chegou, inclusive, a ganhar um prémio por ter tido as melhores notas, desconhecia que a Terra Negra era, naturalmente, uma região da Rússia (e olhem que eu sou mau a geografia!).
Muito piores (porque para mim a culpa está sempre do lado de quem ensina, pois não só baixa o nível de dificuldade como pouco ou nenhum interesse incute nos discípulos), acho as declarações daquele que é considerado um dos maiores sociólogos da actualidade considerar que o 25 de Abril e o Primeiro de Maio "são a mesma coisa". Pois nem é preciso ser sequer de esquerda, ou inteligente, para saber que um, e outro, defendem valores diferentes (se fazem sentido ou não extingui-los, isso são outros quinhentos, mas acerca do aumento de produtividade efectiva decorrentes da sua extinção, é que ainda não ouvi ninguém pronunciar-se).

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Porque é que

sempre que fazem reportagens à porta de estádios em dias de jogo, fico sempre com a sensação que a podia estar a ser filmada na Aldeia dos Macacos, atendendo à quantidade de populaça grunhindo e aos saltos atrás do jornalista?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

La piel que habito


Gostar de Almodóvar é nos dias que correm um lugar comum, demasiado comum para quem há 20 anos seguia a sua carreira, exactamente por fugir dos padrões hollywodescos de então. Aquilo que hoje é alternativo facilmente deixa de o ser, pela facilidade com que se entra nos circuitos comerciais (que, afinal de contas, são os que vendem).
Eu continuo a gostar de Almodóvar pelas mesmíssimas razões de há 20 anos e é exactamente isso que este filme nos tem para oferecer, ainda que à primeira vista não o pareça. Mais contido, mais frio - a temática assim o obrigaria. Mas a receita, essa, está lá. Não dei conta das loiças Bordallo Pinheiro, e nem sempre prestei atenção ao que nos é dado de bandeja e que nunca damos importáncia. E, como sempre, basta estar atento aos pequenos pormenores. Como os hobbies de Vicente e Vera. No final, tudo fará sentido.

(e a Marisa Paredes que não deve ver um palmo à frente? Sem óculos, tropeçou umas três vezes em palco, na cerimónia - vergonhosa, direi eu - de entrega de prémios da Lisbon & Estoril Film Festival. Mas com imensa pinta - o mesmo não se pode dizer da vereadora da cultura da Camâra Municipal de Lisboa, não é...?)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dicas para sobreviver a um dia de greve de transportes públicos

(ou um outro qualquer dia em que os autocarros estejam apinhados)

Faça dieta. Trata-se de física. Um corpo pequeno cabe melhor num espaço exíguo. (e sim, o contrário de estar vivo é estar morto, Lili dixit).
Leve saltos altos. Um pé elevado ocupa uma menor superfície. Além disso tem outras duas vantagens. Pode usar o salto para pisar alguém e, com isso, arranjar mais espaço livre. Finalmente, vai colocá-la acima da linha do horizonte (leia-se: não ficar com o nariz colado a nenhuma axila).
Fale alto acerca de coisas sem nexo. As pessoas vão ter medo de si e afastam-se. Terá maiores resultados se olhar as pessoas à sua volta nos olhos. Mais ainda se gesticular e acertar em alguém.

Se nada disto resultar, saia e apanhe um táxi. Não vai conseguir caminhar na calçada portuguesa, sobretudo molhada, com saltos altos.

sábado, 5 de novembro de 2011

As meninas dos meus olhos

Tinha eu 13 anos quando o Correio da Manhã, na altura com um suplemento jovem dedicado à literatura (antes mesmo que o DN Jovem) publicou um poema meu, com o qual ganhei uma bíblia  de Introdução à Economia, que depressa despachei a quem lhe desse o devido valor. Na altura, foi o pretexto para a Mãe, munida do exemplar do jornal debaixo do braço, calcorrear a cidade e mostrá-lo a toda a gente - tal como um trisavô meu, quando ficou meio tantã, se pôs à porta de casa a distribuir libras de ouro a quem passasse.
Estas coisas dos genes que nos correm no sangue, na pleura e até na bílis fez que nunca mais quisesse publicar nada. Tal como a Mãe fez questão de nunca mais figurar no quadro de honra do Colégio, quarenta anos antes, devido ao orgulho desmedido da Avó, que fez alarde do acontecimento. 
Contudo, foi também esse mesmo orgulho que me fez hoje abrir a revista onde estão publicados os trabalhos da minha amiga L., para os mostrar às senhoras que estavam na papelaria Elegante do meu bairro.