quinta-feira, 31 de maio de 2012

Velhos, mas não dementes

A pessoa vai jantar com os amigos a meio da semana, para cortar com a rotina da vidinha casa-trabalho-trabalho-casa, mas são dez e meia e já cabeceia à mesa, não tem posição na cadeira, o barulho no restaurante torna-se ensurdecedor, anseia por se esticar no sofá ou na cama e quase, quase que troca uma hora de sexo por uma hora de sono bem dormida.


sábado, 26 de maio de 2012

Freud explicaria II

Passagem de ano. 2012-2013? Sala de jantar branca, mobília branca. A mesa sobre um pequeno palco, também branco, ao fundo. Algumas caras conhecidas. 3 I.. A A. Caras de ontem, caras de hoje. Caras desconhecidas. Na cave, cinzenta, ouvia-se música. Paredes insonorizadas. Na subcave, escuro como breu. Passava da meia-noite quando nos lembrámos que era passagem de ano. Vinho branco com gelo (!) em vez de champagne (ou espumante rasca). Pacotes de 13 passas de uva, daquelas escuras, com grainha e pedúnculo. Contei 12. E depois pediram-me para tocar piano. Where do I begin. Como se ainda ontem tivesse ensaiado  - algo que nunca toquei na vida. E perante os aplausos e a minha incredulidade perante o feito, acordei.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ainda me dói a tua ausência

Morreste-me. Morreste-me no dia em que deixámos de falar a mesma linguagem, quando os nossos olhares deixaram de ter significado de um para o outro. Morreste-me quando deixei de te compreender como até então, como se até então fizesses parte de mim, do meu corpo, como as minhas mãos que te afagavam ou os braços que envolviam quando querias colo. Morreste-me quando nos transformámos em estrangeiros um para o outro.
Morreste-me. Morreste-me quando te foste tornando irreconhecível, quando me tornei irreconhecível para ti.  Morreste-me quando a amizade que tínhamos um pelo outro se transformou em outra coisa qualquer que já não era amizade. Apenas uma herança longínqua de tempos felizes que se extinguiram. Morreram as gargalhadas em uníssono. E eu não sei o que fazer com os nossos cadáveres.


E a próxima


Foto daqui.


viagem, também a trabalho, vai ser por estas terras. Que é quase como se fosse ao estrangeiro, pois que me lembre, nunca pus os pés em Trás-os-Montes (por escassos quilómetros). Vamos ver se consegue destronar o meu adorado Minho.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Giselle, Het Nationale Ballet, Lucent Danstheater


Viajar e não aproveitar a oportunidade de assistir a um espectáculo seria um disparate. Sobretudo quando se trata do Het ballet, que já tinha tido a oportunidade de ver há uns 9 anos atrás no CCB, com uma produção do Lago dos Cisnes, à qual chamaram de Black Swan, ainda Natalie Portman começava a dar os primeiros passos na sua carreira cinematográfica.
Desta vez, Giselle, comemorando os 50 anos da Companhia. Irrepreensível, ainda que não genial, muito embora de qualidade substancialmente superior às duas outras versões que assisti, ambas pela CNB. Destaca-se sobremaneira a direcção musical da Holland Symfonia por Benjamin Pope, realçando colorações e instrumentos que até então me tinham passado despercebidos e a surpresa do guarda-roupa das personagens de carácter, muito obviamente trajadas à flamenga e não à francesa, como estamos habituados. 

(e gostei bastante do facto de apesar do bilhete ter sido carote, incluir o programa do espectáculo, o café ou chá antes da função e de uma bebida durante o intervalo).

Terapia de choque

Em vez de recorrer a terapia contra as vertigens, gastei 3,5€ para subir ao topo da Igreja nova de Delft (cada um tem o desporto radical que merece). 



Depois de 85 metros e 367 degraus de uma interminável escada em caracol de meio metro de largura, onde cada cruzamento com pessoas em direcções opostas se revelava mais complicado que jogar Twister, o esforço foi recompensado por esta vista, no caso para a antiga igreja.





segunda-feira, 21 de maio de 2012

Querido (Vermeer), mudei a cidade (para pior)


Depois de ter visto a pintura magistral da vista de Delft, no impronunciável Gemeentemuseum - o Mauritshuis, ligeiramente menos impronunciável museu onde a obra se encontra habitualmente em exibição, está fechado para obras - nada como uma meia hora de eléctrico até sul, onde se encontra a cidade famosa pela pintura de Vermeer, pela loiça azul e pelo assassinato do responsável pela independência dos Países Baixos.
Depois do caminho nos ter sido indicado por um simpático e idoso antiquário, lá chegámos. A fotografia deveria ter sido tirada mais para a esquerda - a memória atraiçou-me. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Diários de Haia

Interrompemos a emissão para breves impressões da nossa estada. 


Só choveu hoje, não vimos nevar e tem feito sol. Mas frio, muito frio.

No mapa parece tudo próximo, mas fica tudo a mais de meia hora de distância.

Novo conceito: engarrafamento de bicicletas.

Continuo sem perceber se a água dos canais é salgada ou não. E se for, como é que os solos são tão férteis.

Tenho jantado bem. As sandes do almoço são boas.

Turismo científico o tanas. Ainda não vi sequer uma loja aberta e não pus os pés num museu (não necessariamente por esta ordem).

Obviamente que o grupo mais bem-disposto é o dos fumadores.

Confirma-se que a portuguesa é louca.

A holandesa é uma graxista do pior.

A sérvia que vive em Praga é uma peidorrenta do pior. E o problema não é a poluição sonora.

Novak afinal é nome de homem.

A outra sérvia não janta depois das sete da tarde.

A francesa e a suiça rivalizam mais que um português e um espanhol.

A eslovaca tem feito jogging diariamente, mas o seu jantar tem sido uma tablete de chocolate de quilo.

Assim que pudermos, retomaremos a emissão.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Da Feira do Livro


Ontem foi dia de Feira do Livro. Desde há uns anos para cá, a Feira do Livro tem perdido o seu encanto. Desdobram-se os romances históricos de qualidade duvidosa, os manuais de mecânica dos anos 70, os livros de espiritualidade e auto-ajuda ou os gurus de como arranjar o homem dos seus sonhos - a banha da cobra, tão típica das feiras. E cada vez os descontos de feira são menores. Três euros não são descontos, são atenções aos clientes que qualquer livraria de bairro faz aos clientes habituais. Lembro-me de anos anteriores em que, com meia dúzia de mil réis, ir para casa com um montão de livros, a ponto de me doerem os braços - na altura também ainda não frequentava o ginásio, é certo. Daí, é natural que acabe por gastar mais dinheiro em bifanas (sofríveis) e farturas, que em livros. 
Aproveitei para comprar a edição da imagem, à direita, que encontrei por acaso e um preço verdadeiramente convidativo - obsceno até. Tinha a edição da esquerda há um montão de anos, muito provavelmente quando a série de desenhos animados passou cá em Portugal e pedi aos meus pais para me oferecerem o livro. Só que o livro, para além de um grande calhamaço de capa dura, que não dá jeito nenhum para ler, estava em português do Brasil. E se autores brasileiros já me custam a ler - o problema é meu, não deles, muito naturalmente - traduções em português do Brasil muito mais.
Mas nem tudo é mau na Feira do Livro. O mercado do livro infantil parece ter crescido, não só em quantidade, mas também em qualidade. As editoras, à falta de bons títulos, apostam em outras vertentes: nos sacos - há sacos de pano bem giros, além de mais práticos e ecológicos que os de plástico ou papel - e no pessoal vendedor, que até nos faz gaguejar quando entregamos o cartão multibanco.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Decisions, decisions...

Imaginemos que trabalhava numa grande empresa, cujo departamento de Comunicação era responsável pela produção de folhetos informativos. E que esses folhetos eram divulgados em simultâneo para todos os colaboradores e que por duas vezes os folhetos apresentavam gralhas, das quais acabavas por dar conta ao teu superior, visto ter sido quem divulgou o folheto. À terceira vez que isso acontecesse, irias passar novamente pelo maluquinho das gralhas ou fechavas os olhos e esperavas que alguém desse pelo erro?