quarta-feira, 27 de novembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
No fundo, no fundo, eu sou um sortudo
Há coisa de cinco anos atrás, quando mudei de casa e por ocasião do meu aniversário, dois amigos ofereceram-me um quadro. Bom, uma amiga e um amigo que não sei, entretanto, como lhe chamar; as pessoas afastam-se sem justificação, já me interroguei que merda terei feito (facilmente assumo as culpas, até da fome do mundo), pelos vistos não suficientemente importante para falar comigo e esclarecer as coisas. Dizia eu, ofereceram-me um quadro. Melhor, uma moldura daquelas para várias fotografias. E que fotografias escolheram? As de umas férias em que passámos os três juntos - bem divertidas por sinal - em que sou eu o retratado. Uma sequência de figuras tristes, divertidamente tristes, em pleno largo da Pousada de Estremoz, as quais me recuso descrever, ainda tenho uma reputação blogosférica a manter, poucochinha, mas tenho. A moldura só poderia ter um destino: o meu quarto. Retratos do próprio só num canto privado, ainda mais numa situação tão constrangedora - como seriam as reuniões de condomínio com aquilo pendurado na sala?
Pendurado que ficou durante cinco anos, mesmo por cima da cabeceira da cama (sim, alguns engates terão visto, mas assim como assim também me viram a fazer outras acrobacias, portanto a coisa disfarça). Até quinta-feira passada, quando chego a casa ao final do dia e tenho a ripa inferior da moldura num ângulo de 180º e o vidro a escorregar lentamente, faltando muito pouco para cair por completo. No meio desta história, uma sorte dos diabos; se fosse durante a noite, não sei o que teria acontecido.
(Entretanto, colocou-me outro problema, bem menor, é certo: o que colocar na parede? Até o meu mais novo olha para o gancho e mia, desaprovando a nudez da cabeceira.)
(Entretanto, colocou-me outro problema, bem menor, é certo: o que colocar na parede? Até o meu mais novo olha para o gancho e mia, desaprovando a nudez da cabeceira.)
domingo, 24 de novembro de 2013
Coisas que nunca esperei dizer na vida
- entrar numa superfície comercial e dois minutos depois: "Já não aguento com músicas de Natal"
- passar por um carrossel : "Agora dava-me jeito ter uma criancinha, já tinha uma desculpa para andar de carrossel"
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Do encerramento do cinema King
Depois do encerramento do Teatro-Estúdio Mário Viegas, o encerramento do cinema King é um duro golpe na nossa cultura, como tantos outros que nos infligem diariamente.
Contudo, quando penso no cinema King, o que me vem à memória não são os filmes que lá vi e que dificilmente veria noutros cinemas; nem a feliz ausência de pipocas e o seu cheiro nauseabundo (no pun intended); nem o facto de o público se conseguir manter calado durante o visionamento do filme.
O que recordo são as cúmplices viagens de transportes desde a Basílio Teles há quinze anos atrás até lá; as tentativas solitárias de curar ressacas amorosas depois do fim de várias relações ou em momentos de maior sufoco sentimental em que procurava desesperadamente ter um espaço só meu; das mensagens de amigos a contarem-nos que o nosso livro se vendia na sua livraria ou a primeira vez que fui ao cinema com a actual cara-metade. Domingo fecha também uma parte de mim, que não se vai repetir.
Disclaimer
Este blog não publica (ou melhor, apaga, que não existia moderação) comentários, anónimos ou não, que denigram a reputação das pessoas reais que estão por detrás dos blogs, seja verdade ou não (não estou nem aí). Já me bastam as Bárbaras e os Maneis desta vida.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
O Portugal dos pequeninos
No passado sábado assisti a uma das últimas representações de O Aldrabão, de Plauto, no Teatro D. Maria II. Em boa hora o fiz. Tive oportunidade de ver em palco (não me recordo de os ter visto antes) as belíssimas prestações de Rui Mendes e Fernando Gomes.
Em Portugal, quando se fala de teatro, parece que só temos dois grandes nomes ainda vivos. Recebem prémios carreira, prémios disto e daquilo, são convidados a trabalhar (mais não seja em novelas da TVI, mas ter trabalho nos dias que correm, é algo positivo) e uma coisa puxa a outra. Quanto mais se tem, maiores oportunidades há. No entanto, tanto talento que continua por aí, à espera de ser devidamente reconhecido. Para quando uma distinção para Rui Mendes ou para tantos como ele?
Tal como na Literatura, onde só parece haver Pessoa e cada vez menos Camões. Não que o reconhecimento público esteja errado e que deva ser menorizado. Não. Apenas há mais e tão bons quanto. Quando deixamos de ser monoteístas (ou pequeninos, se preferirem) com a nossa nossa cultura? E quem diz cultura, diz qualquer área. Ou nos vossos tascos não são sempre os mesmos os escolhidos?
domingo, 17 de novembro de 2013
A propósito de Doris Lessing (1919-2013)
Sem ter lido tudo de toda a gente (que interessa), torna-se difícil escolher um livro ou um autor. Prefiro falar de vários livros e vários autores. Doris Lessing poderá não ser uma das minhas escritoras favoritas, mas tem tem um dos meus livros preferidos (e também um dos que menos gostei).
Só a li depois de ter ganho o Nobel, confesso, embora já tivesse livros dela lá em casa. O Verão antes das trevas, da Colecção Dois Mundos da Livros do Brasil, herdei da biblioteca dos meus avós; O Quinto Filho, na edição do Círculo de Leitores, na biblioteca da mãe. Este último perturbou-me deveras, marcando-me igualmente, mas pela negativa. Nunca poderia considerá-lo um dos meus livros de eleição. Pelo contrário, o Verão antes das trevas, apesar de toda a carga dramática (ou até trágica, no sentido clássico da inevitabilidade do destino ao qual não podemos fugir, por muito que nos desviemos da rota que tracemos - ou que nos tracem) da condição humana, consegue-o fazer magistralmente sem que acabemos o livro de braços cruzados e conformados, mas sim iluminados com a esperança de que haja luz antes das trevas.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Espaços decadentes não são de evitar, são mesmo de fugir
Grande parte dos sítios que estão na berra não se percebe porque o estão. Na verdade, porque meia dúzia de iluminados que expõe as suas ideias em guias de lazer e afins o decidiu, a par de um público igualmente pouco exigente, porque inculto e inexperiente. Assim se percebe que brunchs e pequenos-almoços de hotel tenham tanto sucesso para quem nunca teve mesas fartas quotidianamente, embora continuando na ignorância quanto ao que são ovos quentes; que runners tenham destronado os chemins à mesa ou que o gin tenha passado a andar em más companhias, que não os fiéis e acertados tónica, gelo e limão.
Sábado passado fui a um desses sítios, ali em frente ao miradouro de São Pedro de Alcântara, a pretexto de um jantar de aniversário. A reserva, para 15 pessoas, estava feita há mais de uma semana. No entanto, no próprio dia é que avisaram a aniversariante que tinham outra reserva, para duas horas mais tarde e que, portanto, teríamos de jantar em duas horas. Tipo manjedoura, mas à vez. Perguntou-me se quando existe overbooking no hostel, se põem uns clientes a dormir da meia-noite às quatro e os outros das quatro às oito. Porque toda a gente sabe que é perfeitamente exequível coordenar 15 pessoas sem atrasos, sobretudo num local sem estacionamento acessível. Num jantar de aniversário. Quando o próprio pessoal poucas vezes vem à mesa e quando o vem, é para insistir que só temos x tempo para terminar a refeição (foram três vezes que o fizeram). Obviamente que o grupo seguinte, também ele composto por outras 15 pessoas e com reserva feita há mais de uma semana, esperou mais de uma hora, sem que lhe tivesse sido oferecido qualquer aperitivo. O que não é de estranhar, já que a única coisa oferecida durante todo o jantar, para além do serviço inqualificável, foi mesmo a água. Da torneira, a única que veio para a mesa durante todo o jantar (sim, sim, as garrafas eram giras, mas a água continua a ser da torneira).
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
A noite de José Saramago
Assisti ontem à ante-estreia da peça A noite, de José Saramago, no Teatro da Trindade. Um bom texto, marcado essencialmente pela sua actualidade - o que não se esperava, à partida, de uma peça com contornos históricos - e sobretudo pela excelente encenação de José Carlos Garcia, tão credível e realística, tornando o texto ainda melhor. Destaca-se igualmente o trabalho de Vítor Norte, João Lagarto e Filipe Crawford, embora a verdadeira surpresa da noite seja Sofia Sá da Bandeira que, por a considerar tão má actriz, se revelou bem melhor do que alguma vez pensei. Nota muito negativa para Pedro Lima, que consegue estragar por completo uma das melhores personagens de toda a peça. A não perder e quando saírem, peguem nas pratas e fujam para o Brasil (não oferecem pratas, mas diz que a Casa Ermelinda Freitas oferece uma garrafa de vinho no final do espectáculo a quem apresentar bilhete*).
*e tanto que podia dizer sobre giveaways...
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Não são eles, somos nós
Não raras vezes, falhamos tão redondamente quanto as figuras públicas. Estas esforçam-se por dar entrevistas realçando as suas qualidades, por aparecerem em público em acções de solidariedade, sorrindo, transmitindo a ideia de que são felizes e que fazem os outros felizes. O mundo em cor-de-rosinha. Mas depois esquecem-se que a vizinha de cima, o senhor do talho, o colega de trabalho, a senhora que nos tira as bicas também fazem parte do público... É muito fácil esquecer que tudo conta.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
E esta parábola, será que percebem?
Lá na terra (eu não tenho terra) existia, para além da rua direita (todas as terras têm uma rua direita, que geralmente é a mais torta), um café Central. O café Central (que não é necessariamente no centro geométrico das terras) era um café como os outros, com a particularidade de ser um dos mais antigos da terra. Nem os Avós se lembram de quando abriu; apenas se lembram que esteve aberto. Pouco mais do que a sua situação privilegiada definia o café Central. Era o local onde os velhotes passavam o dia, liam o jornal, jogavam às damas. A bica era amargosa, os bolos secavam na vitrina, ainda se serviam bagaços e aguardentes em pequenos balões riscados a azul e as moscas morriam electrocutadas numa luz roxa - paz à sua alma. Os jovens não o frequentavam, as senhoras não iam lá porque não era de bom tom. Só os velhotes. Mas os velhotes vão morrendo, as reformas diminuem, há que cortar. No café Central, acabam por ser as moscas as únicas freguesas. Até que um dia o café fecha as portas e é comprado por uma grande cadeia de fast food. É então que cai o Carmo e a Trindade. Os velhotes que tinham deixado de frequentar o café Central ficam indignados; as senhoras que nunca puseram lá os pés ficam indignadas; os jovens que gozavam com os velhotes frequentarem tal espaço ficam indignados. Toda a gente fica muito indignada, mas nunca ninguém pôs os pés no café Central antes dele fechar.
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