sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O fim*

Não é preciso mais desculpas. Há que encarar os factos. Chega o dia em que o amor acaba. Finito. The end. E essa sim, é a verdadeira razão para o término das relações. Não é por surgir alguém mais interessante, por irmos viver para outra cidade a km de distância, nem tão pouco por querermos estar sozinhos nesta nova etapa da vida. Todas estas desculpas que damos a nós próprios - estejamos nós em que papel estivermos na relação que agora finda - são apenas uma, ou várias, das muitas desculpas para a verdadeira realidade - a morte do amor. Talvez porque o amor seja um saldo que se esgote, talvez porque as relações necessitem de um esforço mútuo contínuo, talvez porque as pessoas por quem nos apaixonamos - ou a imagem que construímos delas - acabam um dia por morrer. E com elas, o amor. 
Não ocorre de um dia para o outro, não. Também ninguém se apaixona de um momento para o outro. O desejo sim, nem sempre; a mim excitam-me as pessoas inteligentes, por isso talvez goste de pessoas caladas. E com óculos, mas isso talvez seja por querer que me vejam melhor. Também o amor quando morre vai desfalecendo, um sufoco imperceptível, sou eu que não quero perceber os sinais - já não me olha nos olhos quando diz que me ama, agora já nem diz, o sexo tornou-se numa actividade mecânica, marcada pelo compasso do relógio à espera que algo aconteça como que por milagre, a cumplicidade deixa de existir nos pequenos gestos, há quanto tempo não me deixas escrito um bilhete dentro da minha pasta?
O amor morre. Não tenhamos medo, não arranjemos mais desculpas para o nosso fracasso, o excesso de trabalho, o nascimento dos filhos, a boazona do decote pronunciado, o colega carente e mal fodido.
Foram precisos... dez? dez anos para meter na cabeça que o amor acaba. Finalmente posso terminar aquele dia de Setembro (ou foi Agosto?) - talvez antes até, eu estava de manga curta, sem mangas, sem roupa, sem ti, o meu mundo tinha acabado e eu tinha tido o meu primeiro grande desgosto de amor. Hoje, volto a casa, a outra casa, nunca conhecerás esta casa. Deito-me na cama, sei que me deixaste de amar. Apago a luz e sei que já nada disso me importa.

*texto já publicado

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Deus deve divertir-se imenso

Ontem, durante a conversa a meio do jantar, um amigo, totalmente por acaso e sem querer, revelou-me a identidade de um blogger que sigo e que me segue. Suspense, não, não vou identificar. Que o mundo é muito pequenino, é um facto. Agora ser tão contraditório é que não nos tínhamos apercebido. Já conhecíamos a pessoa por detrás do blog através do facebook, e não ìamos à bola com ela por causa dos comentários parvos que aí faz. Contudo, o que escreve no seu blog, pelo contrário, tem bastante consistência e interesse, contrastando obra e criador. Donde, se calhar isto não são só blogs ou o facebook é só o facebook. 


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

De nada adianta ler Kundera aos 13

É muito rápido e simples compreenderes a distinção entre fazer sexo (para não dizer foder, que este blog ainda se quer sério) e fazer amor, porventura a expressão mais infeliz e ridícula da língua portuguesa.
Porém, para perceberes o verdadeiro significado de "partilhar o sono", tão distinto de dormir ao lado de alguém,  são precisos mais de 20 anos - o que implica a leitura de muitos mais livros, mas sobretudo de muitas mais relações amorosas.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Na minha mesa-de-cabeceira só há grandes e grossos

E assim, com um título Correio da Manhã, demonstramos a nossa solidariedade para com a São João, fazendo votos que as editoras passem a fazer livros em dois tomos ao mesmo preço de um único volume, impossíveis de ler nos transportes públicos, praias ou esplanadas.

(998 páginas, um quarto lido)

(943 páginas, por ler)

(1065 páginas, por ler)

(615 páginas, por ler)



domingo, 19 de janeiro de 2014

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Isso do Panteão, no geral, e outras metáforas

Maarten Biesheuvel e Eva Biesheuvel-Gütlich, por Lia Laimböck, 2011
(pelos gatos, claro está)

Faz-me lembrar a história que a eminente professora de Literatura me contou, enquanto me fazia a visita guiada no Letterkindung Museum, em Haia, a propósito da minha pergunta acerca de qual o critério da escolha dos retratos de autores holandeses expostos permanentemente, exibidos numa das salas:

- "Sabe, segundo consta, quando se pensou na ideia de expor os retratos dos principais escritores holandeses, pediu-se a todos os escritores ou aos seus descendentes, que cedessem um quadro seu. Ao fazê-lo, qualquer pessoa que tenha escrito um livro, enviou alegremente um retrato seu. Posto isto, não havia como não exibir aqueles que, por qualquer outro critério, não devessem ser incluídos.

Agora que penso nisso, talvez tenha sido a única vez que a tenha visto rir.




quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A culpa é da chuva

Todos os dias são dias iguais. Os dias pequenos, pequeninos, onde não cabe nada, absolutamente nada senão o rame-rame do quotidiano das vidinhas enfiadas em ruas estreitas, à sombra dos prédios altos. O cheiro a mofo nas roupas, nos cabelos eriçados da humidade, as caras fechadas nos transportes, os pés frios que não aquecem com dois pares de meias de lã grossas que escorregam no chão molhado, por entre as folhas já mortas, o trânsito parado nas principais artérias.
Mas o pior não é isso. É sentirmo-nos a escorrer por dentro. O sangue que não flui, o coração bafiento moribundo, o ar irrespirável, viciado. É tão difícil quando é Inverno por dentro de nós.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O problema das pessoas

é, quando a porta se fecha, esperarem que Deus lhe abra as janelas, em vez de rodar a maçaneta da porta.


Dúvida (já lhe perdi a conta)

Pode um amor ter sido tão fortemente intenso que se esgotou rapidamente?


O post que se segue contém linguagem considerada inapropriada

O amor não é fodido. O amor fode-nos a vida. É tudo uma questão de voz, que nos tolda a razão e distorce a realidade, qual droga psicótica. Veja-se o caso dos dois adolescentes bexigosos de Verona, que além de dizimarem parte das respectivas famílias, acabam os dois mortos, às suas próprias mãos. Do amor. 
Gostava de saber o que teria acontecido, caso não tivesse havido a resistência da família. O dia seguinte. Quando afinal o tipo percebe que gosta dela, mas que afinal não quer casar já. E ela quer ter filhos, mas não para já. Quando ele não lhe consegue dar um orgasmo. E ela não quer por trás. Quando ele fica sentado no sofá, sem ajudar nas tarefas domésticas. Quando ela não quer ir ao domingo almoçar a casa da sogra.

No fundo, os escritores é que sabem. A morte resolve tudo.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Se é assim com as coisas simples da vida, imaginem o resto

Nunca percebi aquela coisa do rodar para a direita ou para a esquerda, seja para abrir ou fechar torneiras, para aparafusar ou desaparafusar. Se nos referimos a algo que gira sobre si mesmo, ora roda para direita no eixo superior ora para a esquerda no eixo inferior (e vice-versa).