quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

E com isto, ficam convencidos que vos conto tudo


Ontem, no Centro de Saúde, a senhora que estava à minha frente, contou pelo menos duas vezes, como tinha sido picada por uma melga ou mosquito, mesmo em cima do nó do dedo e que nesse dia tinha colocado um anel e que há dois dias tentava tirar o anel, sem o conseguir e que já tinha experimentado de tudo, sabonete, azeite, vaselina, creme Nívea.
Confesso que não percebo a facilidade com que as pessoas falam da sua vida privada a desconhecidos, como a outra que lhe mostrou as fotos dos netos, uma Carlota, como a gata dos meus pais, o outro não me lembro, não me espantaria que tivesse o nome do meu mais novo, mas depois lembrei-me que tenho um blog e uma conta no facebook e na volta vai dar ao mesmo, mas com uma vantagem. Não o faço aos gritos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A farsa d’O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry

Gerações de crianças e adultos leram ou foi-lhes lido este pequeno conto, que mais não é que uma alegoria do crescimento e da importância do amor. Cresceram fazendo dele um lema de vida. Todavia, incorreram no próprio erro de quem nunca o leu. Poucos usam o coração para ver o que é realmente essencial. Na verdade, toda a gente deixa os olhos e a razão sobreporem-se ao coração. Pior, a insistência de sermos responsáveis por aquilo que cativamos (no original apprivoiser, que apenas em tradução livre significa cativar) apenas tem causado problemas que poderiam ter sido perfeitamente evitáveis se as pessoas percebessem a enorme diferença entre as qualidades inatas do ser humano e as que decorrem da acção deliberada, utilizada com um objectivo próprio e esse sim, nem sempre o melhor. Para além disso, culpar os outros pela atracção que estes exercem em nós, quando na verdade nós temos a capacidade de nos deixarmos ou não cativar, é, além de uma enorme burrice, a prova de que caímos facilmente nos mesmos erros que acusamos os outros.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cansaço

Ter de explicar ao senhor do restaurante que o bife é em sangue, ao do café a chávena fria, à senhora da mercearia a fruta nem verde nem madura, ao desconhecido na rede social a ironia, aos colegas de trabalho a ideia sem problemas, aos amigos que não sabemos o que sentimos. Desde quando nos perdemos em explicações?


O mundo está mesmo perdido

Durante muito tempo pensei que a culpa fosse dos marketers, publicitários, responsáveis pela comunicação, brand qualquer coisa ou lá quem está encarregue dessas coisas, não percebo nada disso, mas enganei-me, muito provavelmente a culpa é nossa, a dos consumidores. Ontem lá respondi a mais um inquérito acerca de hábitos de consumo acerca de uma marca de massas alimentícias, provavelmente preocupada com as novas dietas que por aí pupulam, que reduzem drasticamente a ingestão de hidratos de carbono e que devem fazer tão bem como sei lá o quê, a menos que a história da roda dos alimentos já tenha sido ultrapassada, antigamente a margarina é que era e agora o azeite é que sim, mudam-se os tempos e as vontades, mas bem não faz nenhum. Voltando ao inquérito, pelos vistos a marca já não se preocupa em ter um bom produto, uma boa apresentação, ser minimamente saudável (batatas fritas nunca serão uma alimentação saudável, mas sabem bem, desde que consumidas moderadamente), assente numa produção equilibrada e justa. Não. Pelos vistos, interessa-se sim pelo folclore. Se a marca se deve ou não associar a corridas, a programas televisivos de culinária, enviar chefs a casa a exemplificar receitas, ou a brand week em qualquer restaurante ou quiçá mesmo ser publicitada em qualquer blog nacional ou internacional. Enquanto houver gente a achar que este tipo de happenings interessa para alguma coisa, só porque tem uma vida de merda e todas estas coisas a fazem sentir um bocadinho melhor, está mais do que certo que a qualidade de qualquer produto vai ser inversamente proporcional ao seu preço e somos todos nós que continuamos a perder.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Obrigado

Continuação do post anterior ou como não falava do blog

Isto de se escrever metaforicamente, com largo recurso a alegorias e a outras figuras de estilo, transforma toda a nossa vida numa hipálage. Um desajustamento, em suma.


Libertação

Por vezes tenho uma vontade súbita de começar um outro blog, sem leitores, onde ninguém me conhecesse, onde fosse de facto anónimo, onde ninguém me compreendesse verdadeiramente e assim não dar azo a mal-entendidos e dizer realmente tudo o que penso como os malucos, sem qualquer consciência do outro, como se este não sentisse, não pensasse, não existisse. Uma espécie de nascer segunda vez, começar tudo do zero, emigrar para um novo país, uma nova cidade, sem constrangimentos alguns, o desconhecido, o horizonte como limite, sem qualquer contacto com o passado. Mas este agarra-se a nós, pastoso, como a poeira que assenta nos corpos transpirados, cansados dos mesmos movimentos, dos mesmos gestos, dos mesmos hábitos, da mesma rotina, da roupa que já não nos serve, das bengalas que já não precisamos para nos apoiar. A mais difícil libertação é a de nós mesmos.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sangue frio

Quando terminas uma relação, inicias um processo de desintoxicação. Sim, desintoxicação. Não é só o cheiro do Outro que deixa de estar agarrado à roupa da  tua cama, à tua roupa, à tua pele; nem tão pouco o calor do seu corpo que deixa de estar encostado ao teu, orfão de contacto e carinho. Aos poucos começas a sair da rotina a que estavas preso, à mensagem de bom-dia, o telefonema ao final do dia quando não podiam estar juntos. Deixas de ver os seus programas preferidos, de cozinhar os seus pratos preferidos. No fim-de-semana levantas-te logo da cama porque não há motivo nenhum para lá continuares, não vais ao café onde costumavam ir, porque agora a tua única companhia é o livro que levas debaixo do braço.
Com tudo isto, te arrancam a ferros de mim.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Memórias

Os dias chuvosos ininterruptos como o de hoje são a memória dos Invernos da minha infância. Apesar de ficar fechado em casa por estar sempre doente com asma-brônquica; das calças de flanela que picavam desconfortavelmente as pernas; das botas ortopédicas que me magoavam os pés; dos dedos que quase quebravam com o frio quando tocava piano, posso dizer sem sombra de dúvidas que tive uma infância bastante feliz.


Poço de contradições

Admirar imenso aquelas pessoas de convicções fortes, que lutam pelos seus ideais, mesmo não vendo mais nada à frente, nem tendo a sensibilidade para perceber o quanto são irredutíveis (e tacanhas).
Admirar imenso aquelas pessoas completamente abertas a novas ideias, permeáveis à mudança e com noção dos diferentes pontos de vista, mas sendo incapazes de abraçar qualquer causa e de tomarem posição.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ainda do cinema

Pelos vistos, são raras as pessoas da minha idade que vão ao cinema aos sábados à tarde. Não foi sequer a sessão das duas. Mas tirando o casal ainda na casa dos vinte, a maior parte da sala (nem um terço, provavelmente), era ocupada por pessoas maiores de 50 anos, com especial tendência para a dos 60.
Pergunto-me se esta não coincidência com a minha faixa etária se prende com o horário escolhido ou porventura com o filme escolhido. 


Philomena


Este sábado fui ao cinema sozinho. Já o disse por várias vezes aqui; ir ao cinema sozinho funciona para mim como uma terapia. Há quem se enfie no cabeleireiro, há quem vá às compras, eu vou ao cinema. Na verdade, trata-se de uma boa desculpa para estar efectivamente sozinho comigo mesmo e aproveitar o tempo de forma útil. Entre três ou quatro filmes que queria ver, decidi-me pelo Filomena, por muito mau que fosse teria sempre Dame Judi Dench, o que só por si o tornaria um bom filme. De facto, da sua interpretação nada a dizer.
O filme aborda a questão da venda de bebés por instituições católicas na Irlanda que acolhiam mães solteiras, ao longo do século XX. Situação mais perversa ainda ocorreu na Espanha franquista, onde às parturientes era dito que a criança morrera após o parto, quando na verdade era vendida para adopção. Todavia, ainda que a narrativa gire à volta daquela questão, vários são os temas abordados: o facto de precisarmos uns dos outros, apesar da existência de diferenças, por vezes abissais; a Fé: como conseguir mantê-la nas adversidades; a questão da culpa tão bem incutida pela religião, não raras vezes associada à moral e que acaba por ter um efeito perverso de incutir a dúvida, dissuasora da acção. 
Todavia, a maior reflexão que este filme nos oferece é o do poder do verdadeiro perdão - não daquele que diz perdoo, mas não esqueço. É o perdão que prefere não se insurgir contra a injustiça, real e óbvia e que não exige desculpas. Este sim, o verdadeiro perdão libertador e o único capaz de garantir o verdadeiro sossego, além de desarmar por completo a parte em falta. Muito poucos seremos capazes de o fazer.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

E depois?

Depois os outros, as filosofias baratas, as psicologias da tanga, tão contraditórias quanto os provérbios populares, quem espera desespera, quem espera sempre alcança; tens de aprender a gostar de ti, a estar só, a viver contigo mesmo, a seres auto-suficiente, a não precisares de ninguém, quanto atinges isso para que queres tu uma relação, se já és auto-suficiente, estás lá agora para aturar as merdas dos outros, que não gostam de si, que não gostam de estar sós nem de viver consigo mesmos, quem quer alguém assim?

Purga

Ensina-nos a praticar o bem, a não fazer o mal nem a magoar o próximo, os outros, esqueçam a treta da matriz judaico-cristã, não a culpem mais, todas as religiões dizem o mesmo; chega a altura de dizer não, vais ter de aprender a dizer não, não queres dizer não, não é isso que queres, não é isso que sentes, o não sai-te entremelado, aos gorgolejos, como se não fosses tu a dizê-lo, golfadas de sangue que espirram e salpicam a parede, a mim, a ti e só quando lambes as feridas é que percebes que o certo e o errado, o bem e o mal não são essas coisas que te ensinaram,há males menores para bens maiores, se assim quiseres, não me culpem a mim, a ti, a nós, talvez essa porra do pecado original sem originalidade nenhuma, porque a força motriz de tudo é o amor.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Post privado

Talvez aquilo que nos separe seja o facto de preferirmos Margaridas diferentes.


Another suitcase in another hall

Não pertencemos a lado nenhum, nem tão pouco um ao outro. Faço-te as malas. Pego na tua roupa, espalhada pela casa. As camisolas com o teu cheiro. O teu pijama. Nunca soube dobrar roupa, as camisolas não vão ficar direitas, eu não sei dobrar roupa, não quero dobrar a tua roupa, sei que vais reparar, morder os lábios para não comentar, vou fechar os olhos para que não repares, culpo o gato por as camisolas estarem com pêlo, o tempo não passa, o desconforto fica agarrado à pele, o nó na garganta adensa-se e não consigo pensar. Parece que nasci para dobrar roupa, para fazer as malas, as tuas roupas, as tuas malas, as roupas e as malas de quem partilhou a minha cama, o meu quarto, a minha vida, de quem já partiu, de quem nunca ficou, mesmo que quiséssemos ficar, nós sempre quisemos ficar, nunca fomos de partir. São os teus pertences, eu já não te pertenço, a chuva cai lá fora, mas não leva consigo o desconforto, tu sais apressadamente, a porta fecha-se atrás de ti, nós não somos de parte nenhuma, apenas ficamos ou partimos.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Tragam champagne

Finalmente, após largos meses sem dar sinal de vida, eis que ou a vizinha do lado encostou novamente a cama à parede ou retomou a sua vida sexual. E nós estamos cá para a felicitar, que já temíamos pela sua saúde física e mental.

(felizmente foi a meio da noite e eu eu não tinha visitas na sala)