terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Na hora

Queria que hoje a minha única preocupação fosse se as duas dúzias de ovos que esperam no frigorífico chegassem ou não para os devaneios pantagruélicos do dia de Natal.
Mas, ao vê-la vestida de preto, tendo como única condecoração no peito o pregador com o retrato do marido morto, lembrei-me do que ouvira este fim-de-semana, num qualquer programa de televisão - de que o Natal é, cada vez mais, dos que cá não estão.
E com os olhos marejados de saudades, daqueles que se perderam um qualquer dia no mar, relembro não a Ladaínha dos póstumos Natais, de David Morão Ferreira, mas na hora de pôr a mesa, de José Luís Peixoto.


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


(José Luís Peixoto- A CRIANÇA EM RUÍNAS)

5 comentários:

Carlota disse...

O sentimento é mutuo...
Este ano, nem parece Natal! É a época festiva que mais gosto, mas este ano... passava por cima dela!

Espero que tenhas um Feliz Natal, junto dos teus entes mais queridos. Que seja uma noite santa repleta de Saúde, Amor e Paz.
Beijinho grande

ric@rdo disse...

Abraço, miúdo.
:)

Adão disse...

Rapaz, quase que chorei a ler o texto, que aqui colocaste. De facto, revejo-me nele. Por exemplo, na minha mesa éramos 7. Depois a minha bisavó morreu. Depois foi a vez do meu avô. E este ano ausentou-se a minha avó. E dos 7 passámos a 4. E esses 4, daqui a uns tempos provavelmente serão menos. Mas qualquer das formas, tenho a certeza, que em todos os Natais que presenciar, ou “enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre” 7. Feliz Natal. E muitas felicidades.

CoRa disse...

Lindo texto...
Ainda somos fisicamente 5 na casa dos meus pais, mais os sobrinhos e agregados...
Na minha casa eramos cinco. Eu e meus quatro filhotes peludos.
Hoje sou eu, a lembrança deles e dois novos que acabam de chegar

beijinhos

Pedro disse...

O mérito é todo de José Luís Peixoto.
São estas faltas que nos unem. São tristes, mas merecem ser lembradas.