quarta-feira, 17 de março de 2010

As árvores também se abatem

Há cem anos atrás, quando palmeiras e rotundas não faziam parte do nosso quotidiano, o meu bisavô, lavrador não abastado, plantou duas ou três palmeiras nos terrenos que possuía. Lançaram raízes à terra, cresceram, deitando os braços ao céu. Os filhos nasceram, cresceram e foram constituindo famílias. As palmeiras fizeram-se fortes e robustas. Bandos de pardais fizeram aí os seus ninhos, fazendo as delícias de gatos vadios.
O Pai foi para Moçambique cumprir o serviço militar e nas vésperas da partida, a irmã mais velha plantou nova palmeira, que tal como as outras, viu nascer outras tantas crianças. A quinta tomou o nome das árvores que a faziam destacar na lonjura da paisagen.
Vieram tempestades, terramotos e as árvores continuaram de pé. Mas veio a praga. E as árvores, imponentes, majestáticas tiveram de ser abatidas. Ontem. O Pai inconsolável. A Mãe, que sempre teve um medo gaulês que a mais alta caisse por cima da casa, igualmente inconsolável. Continuamos de pé, mas um pouco mortos por dentro.

6 comentários:

Teresa disse...

Que triste!

E sabe o que me fez lembrar? Aquele episódio da Morgadinha dos Canaviais, o abate das árvores de João Semana... :(

Tulipa disse...

Morremos sempre um pouco simbolicamente quando nos cortam algo que faz parte do nosso imaginário...a mim cortaram-me uma ameixoeira de estimação e pareceu que cortaram um bocadinho da minha infância.
Olha só o que me fizeste lembrar a esta hora…
kisses

Pedro disse...

É, Teresa, nunca pensei que fosse custar tanto. Não me lembrei do João Semana, obrigado.

Tulipa: ainda nem sequer vi o depois, mas vai-me custar.

Viviane disse...

Bolas que não aceitas comentários lá em cima. Parabéns. Adivinhei-te os anos;)

Um abraço!

Pedro disse...

Obrigado, mas não são os meus :p

Cat disse...

Uma árvore abatida é sempre uma coisa triste de ver, é algo que carregamos de simbolismo. Das que fazem parte de nós nem consigo imaginar mas compreendo a desolação...