terça-feira, 25 de março de 2014

Lenços de solidariedade



A tia Aldinha era uma das muitas irmãs e irmãos do pai da minha avó materna e uma das figuras icónicas da nossa família. Solteirona, ao que consta por um desgosto de amor, ainda assim teria sido pedida em casamento um médico que, perante a recusa veemente da tia Aldinha, viria a casar com a filha de outro industrial e avós de uma amiga minha - e afilhada. Rosto redondo, olhos enormes, negros, é como a vejo nos álbuns de retratos que me vieram parar às mãos. Sorriso franco, piedade fervorosa, tinha cadeira e genuflexório numa das principais igrejas da cidade, à frente de todos os outros bancos - estávamos em plena ditadura e  a cidade dos homens dava-lhe primazia na cidade de Deus. A tia Aldinha morreu há cerca de 60 anos atrás, de cancro da mama, não sem, pouco tempo antes, puro devaneio segundo a minha bisavó, ter comprado um tête-à-tête, do qual resta apenas um prato que me veio parar às mãos. 
Há cerca de dez anos, foi a Mãe que passou também por um cancro da mama que, felizmente, saiu vitoriosa. Há cinco, foi a Avó, também cancro da mama. Não tivessem sido as outras complicações de saúde, talvez teria sido o cancro que teria levado, como levou o meu avô paterno, cancro dos intestinos, que lhe sobreveio 30 anos depois da primeira operação . O mesmo que teve o padrinho de casamento dos meus pais e grande amigo de família , que o conseguiu debelar com sucesso. 
Juntam-se primas, tias, filhas de amigas da Mãe, as mães de amigas (tantas!). De todos estes casos, o que mais me marcou, talvez por ter apenas 11 anos, foi o da madrinha do meu irmão, que a levou com quarenta e poucos anos, deixando duas filhas das nossas idades. 
Mas o cancro não ataca apenas este lado, mas também esse. As lutadoras Teresa e Bad (um grande, grande beijo) e a Vânia. A Vânia, já curada, empenhou-se num dos aspectos mais visíveis do cancro e consequentes tratamentos: a queda do cabelo, que agudiza ainda mais a auto-estima de quem passa por este processo. Vai daí, lançou uma campanha de recolha de lenços para as mulheres vítimas de cancro, com a ajuda da Ursa e da Leididi. Como ajudar? Com lenços e acima de tudo, com divulgação. Porque ninguém tem de se sentir só quando o cancro se lhe atravessa no caminho.