sexta-feira, 28 de março de 2014

O post que nunca esperei escrever

Se há coisa que nunca consegui explicar foi a minha vocação para a área onde escolhi desenvolver os meus conhecimentos, os meus estudos e, consequentemente, a minha profissão. 
Desde pequeno que, a par da literatura dita normal, foi a que sempre a que mais me interessou. Aos dez anos, após uma visita de estudo, relacionada com a minha área profissional, escrevi uma composição de três páginas relatando a visita; era notório o interesse que despertava em mim. Portanto, embora tenha feito os testes psicotécnicos no nono ano, foi para mim sempre evidente que deveria seguir humanidades. 
O curso, bem o curso não sei se satisfez a minha busca de conhecimento. Tanto assim foi que decidi continuar os estudos e enveredar por uma suposta carreira de investigação, a par de um mestrado já concluído e de um doutoramento entregue, falta a defesa. Isto significou, é claro, não apenas o desenvolvimento e integração da equipa de vários projectos científicos, todos relacionados com a mesma área, mas também um sem número de apresentações em congressos, e a publicação em revistas científicas ou em livros de actas. 
Posso dizer que, apesar de tudo, a vida me foi correndo bem. Nunca estive mais do que três meses sem trabalho, à excepção deste momento, em que já passaram mais do que seis. Os primeiros ainda deram jeito, sempre deu para terminar trabalhos pendentes, mas a situação está a torna-se insuportável.
Depois de ter recebido anteontem uma resposta negativa de uma bolsa que estava convencidissimo que ganharia (poderia explicar o motivo porque fiquei em segundo e não em primeiro, mas é pouco relevante), fez-me pensar seriamente, mais uma vez, em todo o meu percurso e nas escolhas que fiz, para ter chegado onde cheguei. 
Custa-me dizê-lo, não por ter havido tanto gente que me procurou abrir os olhos, mas sobretudo pelo orgulho em não querer dar razão aos que nunca acreditaram, não propriamente em mim, mas pela total incompreensão que demonstram perante a minha escolha. 
Está na hora de dizer chega. Não à área que escolhi e pela qual os meus olhos brilham sempre que falo nela, mesmo sendo a velha namorada de sempre; mas sim aos moldes que tenho escolhido para desenvolver. Na verdade, nos últimos anos não me tenho sentido feliz. Mas, burrinho que dói, não tenho percebido até ao telefonema de anteontem que, felizmente, me fez as coisas com maior clareza. Nem com os exemplos da Maria ou da Rafa, mulheres que souberam, antes de fazer escolhas, dizer alto e bom som, Eu não quero isto para mim.  Não é somente a precariedade da investigação em Portugal, não só a nível financeiro como da pouca durabilidade e sem qualquer tipo de assistência como sucede qualquer outra profissão. Acresce a isso a constante avaliação, a necessidade de demonstração de produtividade, que só pode ser feita fora das horas ditas de expediente, o trabalho solitário quase constante. Sobretudo, sentir em que não caminho em direcção nenhuma e que os sacrifícios feitos de nada servem para cumprir um propósito maior. Até porque a vida tem de ser vivida aqui e agora e não pode haver necessidade de se penar para se ser feliz.
Se sei o que vou fazer? Não. Posso mudar de ideias amanhã? Posso. Mas logo vou beber vinho, para festejar. 

8 comentários:

Palmier Encoberto disse...

Seja lá o que for que aí venha, desejo, de coração, que te faça mais feliz :)

Ernesto Silva disse...

O Barca Velha é muito sobrevalorizado. Um Montes Ermos... hum, cai sempre bem.

Isa disse...

amei, Pedro. Parabéns. Bjo grande

alexandra g. disse...

À tua! :)

Mr Goldfish disse...

Já sabes a minha opinião no que diz respeito à carreira de investigação (ainda dos tempos do finado Sístole Diástole) por isso não vais estranhar que te dê os parabéns pela tua decisão. Abraço.

Namorado P.S. disse...

"Muda de vida, se não te sentes satisfeito!"

Patrícia Figueira disse...

Sei que já vem tarde o conselho, de qualquer maneira, um Cortes de Cima é sempre apropriado.
:)

Ana disse...

Estive com um contrato nos últimos anos e, há uns meses, num intervalo, abrem - quase à revelia - uma bolsa para o meu lugar, para mim. Eu não concorri, tenho direito a 2 anos de subsídio de desempego e não quis aceitar a desvalorização. No entretanto eu tinha-me doutorado e tenho mais experiência, a paga foi essa. Os instalados no sistema como professores, e que contratam os investigadores, enquanto têm "escravos", estão felizes. Soube que quem abriu a bolsa chegou a dizer "se ela não quer, há mais quem queira". E assim foi. Puseram outra pessoa no meu lugar. Impossívle que faça o trabalho como eu o fazia, a experiência é algo que conta.
E é assim.
Curiosamente, uns meses depois tenho outro contrato. É temporário, mas não me importo de andar de temporário em temporário... Custou-me muito deixar o anterior, mas era isso ou a minha dignidade (que ganhou).
E pronto, é o meu testemunho que vale o que vale.