quinta-feira, 3 de julho de 2014

Eu não sou psicólogo, nem psiquiatra, nem percebo nada dessas coisas

Já sei o que me vão dizer. Que não sou pai, muito menos mãe. Ainda assim, continuo a não achar saudável (para não lhe chamar normal) os pais que substituem a falta de amor conjugal (em sentido lato, de relação afectiva) pelo amor aos filhos. Dizer qualquer coisa como: "O meu filho foi o único homem que até hoje não me desiludiu" é sintomático de que alguém tem sérios problemas, não só na sua vida amorosa, mas também na forma como vive a sua relação com a sua prole; são relações distintas que não podem ser comparadas. Não é suposto os filhos serem um substituto para a falta de vida amorosa ou para a desilusão e sofrimento que esta provoca. São coisas absolutamente distintas. Além de que os filhos desiludem sempre, parece-me é que os pais, genericamente, estão muito mais ceguinhos para os filhos que para a respectiva cara-metade.




5 comentários:

hierra disse...

Eu concordo com isso, mas percebo um pouco o lado de quem, despojado de vida sentimental canaliza isso para a relação mãe / filho. Reconheço que não é adequado. Os filhos desiludem os pais por muitas razões, uma delas é a de não fazerem juz à educação que sofreram, mas a maior parte das vezes desiludem porque se cria em relação a eles uma enorme expectativa quando os filhos têm o seu projecto de vida, que não é necessariamente o que os pais desejam para eles...

Ana Chagas disse...


É engraçado que ainda hoje, reflectia sobre algo semelhante, durante o pequeno-almoço.
Talvez seja por não termos filhos, talvez por, enquanto casal, termos uma relação de grande cumplicidade, mas desagrada-me ver esse tipo de desmerecimento para com a cara metade, parceiro ou parceira. Afinal é a pessoa que escolhemos e que nos escolheu, no meio de um mundo repleto de tantas outras.
Para além que é possível ter tantos amores sem rebaixar nenhum.

Ana (coisas dos intas)

Izzie disse...

Idem idem, aspas aspas, mas eu cá não sei nada, que não tenho filhos :P
(acho um bocadinho perverso por um filho na mesma categoria que 'homens'. Um filho será um homem, mas para a mãe é um filho.)

Pedro disse...

hierra: eu também posso compreender, mas como diz a Izzie, não deixo de achar perverso, colocando ambos os envolvidos em situações ainda mais complicadas - a do progenitor porque para além das carências que transporta, vai arranjar mais sarna para se coçar e a cria, porque certamente sentirá na pele os efeitos disso

Ana: sim, esse teu pensamento é corolário daquilo que disse, embora não o tenha referido taxativamente. E o que é certo é que há muitos filhos que são depois usados como armas de arremesso quando há divórcios...

Izzie: além de que são as pessoas com filhos que deveriam ter essa noção primeiro que nós :D (mas parece que é só para o que lhes convém)

disse...

pedro isso em psicologia é o chamado filho parentificado.

sem muito rigor, ie, na hierarquia familiar ascende a uma posição que não é suposto ter, o lugar do companheiro da mãe ou ao mesmo nível deste, caso exista. muitas vezes isto acontece de forma apenas afetiva, existindo uma aliança entre o filho e a mãe, onde este obtém mais respeito que o companheiro e é tido como o tal substituto ao companheiro de que falas. a mãe busca conforto no filho e é dependente deste. noutras vezes é mais marcada esta relação, existindo num plano mais palpável, onde acaba por ser o filho a tomar as decisões do agregado familiar haja ou não haja uma figura paterna (com certeza também conheces alguma situação, é aquela velha história do miúdo mandar em casa).