quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ainda me dói a tua ausência

Morreste-me. Morreste-me no dia em que deixámos de falar a mesma linguagem, quando os nossos olhares deixaram de ter significado de um para o outro. Morreste-me quando deixei de te compreender como até então, como se até então fizesses parte de mim, do meu corpo, como as minhas mãos que te afagavam ou os braços que envolviam quando querias colo. Morreste-me quando nos transformámos em estrangeiros um para o outro.
Morreste-me. Morreste-me quando te foste tornando irreconhecível, quando me tornei irreconhecível para ti.  Morreste-me quando a amizade que tínhamos um pelo outro se transformou em outra coisa qualquer que já não era amizade. Apenas uma herança longínqua de tempos felizes que se extinguiram. Morreram as gargalhadas em uníssono. E eu não sei o que fazer com os nossos cadáveres.


23 comentários:

Lias disse...

Pois, os cadáveres. Cremar, deixar apodrecer ou mumificar? É a pergunta que faço a mim mesma também. Belo texto :)

Raquel Fernandes disse...

Guardar no armário e esperar que a chave desapareça?

je suis...noir disse...

É bom ver um texto sentido por aqui...

Catarina disse...

Gostei do texto, sobretudo do fim. E da música fúnebre a acompanhar.

Rita Roquette de Vasconcellos disse...

Oh!

Agridoce disse...

Segundo a teoria de que nada se perde, tudo se transforma, uma morte é sempre uma nova vida.

Stiletto disse...

Os cadáveres enterram-se, toda a gente sabe isso. E, depois do luto, as memórias acabam por se tornar doces.
Parabéns, Pedro, o texto está lindo.

Ventania disse...

Não me faças chorar...

Pedro disse...

Obrigado. São mais as perguntas que as respostas.

Pedro disse...

Isso é o que tenho feito, sem resultados...

Pedro disse...

Sentidos são todos, mesmo os mais disparatados. Mas nem sempre estamos virados para os lirismos ;)

Pedro disse...

Obrigado Catarina

Pedro disse...

Por vezes as coisas têm de sair cá para fora e partilhar as dúvidas

Pedro disse...

Sem dúvida. Nem sempre estamos é preparados para essa nova vida :)

Pedro disse...

Obrigado Stiletto. Se calhar as memórias é que estragam tudo, por serem doces. Se fossem amargas... era tão mais fácil!

Agridoce disse...

Preparados estamos. Às vezes, o problema é lutarmos desesperadamente contra essa nova vida... Por ainda estarmos agarrados a estes cadáveres.

Pedro disse...

Não te quero a chorar, mas pelo menos fiz-te aparecer ;)

Pedro disse...

É verdade, tens toda a razão ;)

Anónimo disse...

Percebo perfeitamente. Não sabe, porque no fundo não está preparado para esquecer.

Pólo Norte disse...

Ai lobe you! <3

S.o.l. disse...

Pedro... Pedro...

Não te morreu, ainda vive dentro de ti. E enquanto há vida há esperança... resgata o que podes, como podes... sentimentos assim não morrem, nem sequer se guardam porque não cabem dentro de nós.
Luta... porque será muito, muito dificil voltar a encontrar alguem por quem valha a pena lutar...

Bjo

Nana disse...

Incrivel como este texto diz tudo o que sinto agora.
Incrível como assim de repente 'esbarrams' com algo assim. Escrito como se fosse eu, se eu o soubesse fazer.
Excelente escrita. Parabéns!

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Autch, tropecei neste teu texto agora e lembrei-me.... de um "morreste-me" também

http://dosmeussaltosaltos.blogspot.pt/2009/03/morrestes-me.html