sexta-feira, 1 de novembro de 2013

E esta parábola, será que percebem?

Lá na terra (eu não tenho terra) existia, para além da rua direita (todas as terras têm uma rua direita, que geralmente é a mais torta), um café Central. O café Central (que não é necessariamente no centro geométrico das terras) era um café como os outros, com a particularidade de ser um dos mais antigos da terra. Nem os Avós se lembram de quando abriu; apenas se lembram que esteve aberto. Pouco mais do que a sua situação privilegiada definia o café Central. Era o local onde os velhotes passavam o dia, liam o jornal, jogavam às damas. A bica era amargosa, os bolos secavam na vitrina, ainda se serviam bagaços e aguardentes em pequenos balões riscados a azul e as moscas morriam electrocutadas numa luz roxa - paz à sua alma. Os jovens não o frequentavam, as senhoras não iam lá porque não era de bom tom. Só os velhotes. Mas os velhotes vão morrendo, as reformas diminuem, há que cortar. No café Central, acabam por ser as moscas as únicas freguesas. Até que um dia o café fecha as portas e é comprado por uma grande cadeia de fast food. É então que cai o Carmo e a Trindade. Os velhotes que tinham deixado de frequentar o café Central ficam indignados; as senhoras que nunca puseram lá os pés ficam indignadas; os jovens que gozavam com os velhotes frequentarem tal espaço ficam indignados. Toda a gente fica muito indignada, mas nunca ninguém pôs os pés no café Central antes dele fechar.


5 comentários:

Isa disse...

olha, nem de propósito. o meu post de daqui a nada é mais ou menos sobre isso...

Eolo disse...

Mau, então uma "pissoa" pode perfeitamente não por lá os pés porque é mau e cheio de velhos mas tem todo o direito a ficar indignadíssimo quando fecha, é a crise.

São João disse...

é isso mesmo, tal e qual

disse...

Este país não está pra velhos...
Mas também bicas amargosas em chávenas escaldadas e cafés centrais com cheiro a bagaço só sobrevivem por altura dos festivais de Verão e como sabemos os Invernos são compridos...

Anónimo disse...

Na minha cidade também há uma Rua Direita e o Café Central.