Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Libera Me



Livrai-me, Senhor
De tudo o que for
Vazio de amor.
Que nunca me espere
Quem bem não me quer
(Homem ou mulher).
Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem.
E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

Carlos Queirós (que assinala hoje o seu 105º aniversário de nascimento) in Epístola aos Vindouros e outros poemas

quarta-feira, 21 de março de 2012

Do meu dia

Chega a noite e estou contente. Por ser dia Mundial da Poesia, o Fb esteve inundado dela. É bom ver que, apesar das vendas de livros de poesia serem bastante baixas, isso não traduz tal e qual os gostos das pessoas. 
Depois, saber que um grande amigo, desempregado há alguns meses, conseguiu emprego. E no meio da crise e da depressão - a económica e a nossa - abrem-se portas e janelas, rasgam-se caminhos à força da vontade e sonhos e trabalho. Não que o panorama seja fácil. Mas não podemos cair no erro de olhar e ver a crise como um terreno infértil. Há vida para além da crise. E poesia também.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dois corpos tombando na água



Não sei onde tenho o meu ou a quem o emprestei - se o emprestei. E tanta, tanta vontade de o reler. Isto.


"o que verdadeiramente me dói não são as palavras
que nestes anos todos ficaram por dizer
arrumadas entre os medos que não gritámos juntos
e os sonhos que não transpirei na tua pele
o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cada Lua, cada ano



Frida Kahlo - As suas fotografias. Exposição patente no Museu da Cidade.
(em cima, os pais de Frida - a minha fotografia preferida de toda a exposição)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Graças




Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso.
 
Maria Teresa Horta, in Destino, 1988

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

segunda-feira, 8 de março de 2010

E depois há este poema

Femina, Mário de Sá-Carneiro

Eu queria ser mulher pra me poder estender

Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins» - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Intermezzo

Depois de um interregno, pensamos voltar. Temos o essencial: música. Para começar, o intermezzo de Sonho de uma noite de Verão. Porque já estamos ficar fartos de inverno. E porque precisamos de sonhar. E não é de Sebastião da Gama nem de António Gedeão que me recordo. Mas de Eugénio de Andrade:

É urgente

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.



Feliz 2010






sexta-feira, 10 de julho de 2009

O meu presente de anos


Foi o que me ofereci (acho que me vou oferecer mais coisas, mas este foi comprado no próprio dia).

Não sei quando aprenderei alemão para o ler no original. Não sei sequer quando vou ter tempo para ler (ando a ler três ao mesmo tempo, relacionados com trabalho - um em casa, um nos transportes, outro na praia). Restam-me as noites. E o inverno, que está a chegar (até lá, é um pulinho, vão ver!).

domingo, 12 de abril de 2009

Páscoa

Sem ser, este é, para mim, o melhor poema sobre a Páscoa.






Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.


Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

quinta-feira, 12 de março de 2009

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Armando Serôdio, Doca de Belém, 1966. © Arquivo Fotográfico - Arquivo Municipal de Lisboa

Aos quase trinta torna-se patético ainda se gostar de Florbela. Mas também nem sempre nos vêm buscar ao entardecer.

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca, Charneca em Flor


Porque houve cansaços e abraços, beijos e desejos.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Autogénese

Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.


Nasce-se em setúbal
nasce-se em pequim
eu sou dos açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores;


pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos postigos
e um fórceps de raiva
me arrancou toda
em sangue de mim.


Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.


Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que os não morderam;


nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.


Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.


Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos;


eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a sair
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.


Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim:
impura de todos
gostarem de mim.


                         Natália Correia

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Os amigos

Há dias que começam especialmente bem. Outros, ainda melhor. Quando o carteiro toca duas vezes e nos deixa um embrulho. Este. Porque nunca ninguém tinha feito nada assim. Obrigado!


Les amoureux de la Bastilles. 1957 @Willy Ronis/ Agence Rapho



Os Amigos



Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura.


Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o furtuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis.


Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor.

José Tolentino de Mendonça

(A banda sonora teria de ser o final do III Acto do Il Trovatore mas, com esta fotografia, acho que esta música será a mais adequada.)

Yan Tiersen - Comptine d'une autre eté l'après midi

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Noite de sonhos voada


Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca amordaçada
noutra boca
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...


Manuel da Fonseca

Desde quinta-feira passada que este poema não me sai da cabeça. E que me faz lembrar este outro, de Eugénio de Andrade. Aqui, na voz de Simone de Oliveira.

Adeus
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Do belo

Cá voltarei muitas mais vezes.Talvez a única razão de eu um dia aprender alemão. As Elegias são, para mim, basilares, sobretudo a primeira. Porque há momentos em que a beleza se torna mais terrível.

I Elegia

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.

(...)


in RILKE, Rainer Maria, As elegias de Duíno
A acompanhar, senão o Winterreise de Schubert, porque cantado, só poderá ser a 6ª de Tchaikovsky. A Patética.

Tchaikovsky - 6ª Sinfonia, 1º andamento

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ma Joie!

"Il est des âmes sur la terre
Qui cherchent en vain le bonheur
Mais pour moi, c'est tout le contraire
La joie se trouve dans mon cour
Cette joie n'est pas éphémère
Je la possède sans retour
Comme une rosée printanière
Elle me sourit chaque jour.
(...)"
Primeira estrofe do poema Ma Joie!, da autoria de Santa Teresa de Lisieux, que se comemora hoje o dia. (Peço desculpa a quem não saiba francês, mas a única traducção que conheço é a de Maria Gabriel Llansol e deixa muito a desejar)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Amizade

De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: “Espera e confia!”
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.


Carlos Queirós (1907-1949)

domingo, 4 de maio de 2008

Mãe

Mãe,
que verdade linda
o nascer encerra.
Eu nasci de ti,
como a flor da terra.


Matilde Rosa Araújo

domingo, 30 de março de 2008

Natal

Fadas é nas histórias
e reis é nos presépios
- : Pariste sem mistério como os bichos.

Mas a menina veio
graciosa e delicada.
Sua única fada,
a graça do teu seio.

Ganhaste-a com arranques,
e gritos, e suor,
com amor, com ternura,
e Amor e Amor e Amor.

Sebastião da Gama, in Campo Aberto


Porque o A. nasceu ontem.